Síndrome de Munchausen por procuração – Quando o “amor” pode matar

A síndrome de Munchausen por procuração – é um distúrbio psíquico caracterizado por comportamento de busca de atenção de um cuidador através de pessoas  que estão sob seus cuidados.

É um distúrbio comportamental relativamente raro. Afeta um cuidador primário, na maioria das vezes  a mãe. A pessoa com esta síndrome  ganha atenção procurando ajuda médica para sintomas exagerados ou inventados em relação a uma criança sob seus cuidados. Como os prestadores de cuidados de saúde se esforçam para identificar o que está causando os sintomas da criança, as ações deliberadas da mãe ou cuidadora muitas vezes podem piorar os sintomas. Ou seja,  a atenção dada a esta mãe potencializa os sintomas, o que faz com que a mesma busque com frequência unidades de saúde com seu filho que muitas vezes não têm doença de fato.

Em 1977, esta síndrome foi introduzida na pediatria quando um médico pediatra, por meio do relato de dois casos, usou o termo Síndrome de Munchausen por Procuração (by proxy) para demonstrar situações em que um dos pais, geralmente a mãe, simulava sinais e sintomas na criança, levando-a repetidas internações e exposição a exames e tratamentos perigosos e desnecessários, com o objetivo de chamar atenção para si. Na maioria dos casos (85%), a mãe é responsável por causar a doença ou sintomas.

A pessoa com síndrome de Munchausen por procuração não parece motivada pelo desejo de qualquer tipo de ganho material. Embora os prestadores de cuidados de saúde sejam frequentemente incapazes de identificar a causa específica da doença da criança, eles não costumam suspeitar que a mãe ou a cuidadora pudesse  fazer algo para prejudicar a criança. Na verdade, o cuidador muitas vezes parece ser muito carinhoso e atencioso e extremamente perturbado com a doença do filho.

Estes indivíduos podem criar ou exagerar os sintomas de uma criança de várias maneiras, como  mentir sobre sintomas, alterar testes (como contaminar uma amostra de urina), falsificar registros médicos ou podem realmente induzir sintomas por vários meios, como envenenamento, sufocamento, fome e infecção.

A síndrome de Munchausen por procuração (SMP) é uma forma relativamente rara de abuso infantil que envolve o exagero ou a fabricação de doenças ou sintomas por um cuidador primário.

Também conhecido como “abuso médico infantil”, a SMP  recebeu esta denominação em homenagem ao Barão von Munchausen, um dignitário alemão do século XVIII conhecido por inventar histórias sobre suas viagens e experiências para chamar a atenção. “Por procuração” indica que um pai ou outro adulto está inventando ou exagerando sintomas em uma criança, não em si mesmo, é uma doença mental e requer tratamento.

Geralmente, a causa da SMP é a necessidade de atenção e simpatia de médicos, enfermeiros e outros profissionais. Alguns especialistas acreditam que não é apenas a atenção que é obtida com a “doença” da criança que conduz esse comportamento, mas também a satisfação em enganar os indivíduos que eles consideram mais importantes e poderosos do que eles próprios.

Porque pais ou cuidadores parecem ser tão carinhosos e atentos, muitas vezes ninguém suspeita de qualquer irregularidade. O diagnóstico é extremamente difícil, devido à capacidade dos mesmos para manipular os médicos e induzir sintomas na criança.

Muitas vezes, o perpetrador está familiarizado com a profissão médica e está bem informado sobre como causar doença ou deficiência na criança. O profissional de saúde muitas vezes ignora a possibilidade de SMP porque vai contra a crença de que pais e cuidadores nunca machucariam deliberadamente seu filho.

A maioria das vítimas de MBPS são pré-escolares (embora tenha havido casos em crianças de até 16 anos), e há um número igual de meninos e meninas.

O diagnóstico é muito difícil  mas pode envolver as seguintes situações:

–  Crianças que tem vários problemas de saúde que não respondem ao tratamento ou que seguem um curso persistente e intrigante.

– Achados físicos ou laboratoriais altamente incomuns, não correspondem ao histórico médico da criança ou são fisicamente ou clinicamente impossíveis.

– Sintomas de curto prazo que tendem a parar ou melhorar quando a vítima não está com o perpetrador (por exemplo, quando a criança está hospitalizada).

-Mãe, pai ou cuidador que não são tranquilizados por “boas notícias” quando os resultados do teste não encontram problemas médicos, mas continua a insistir que a criança está doente e que irá  “procurar outro médico” para encontrar um profissional que acredite no que ele fale.

– Pais ou cuidadores que pareçam ser experiente em assuntos relacionados a saúde ou fascinado com detalhes médicos ou pareça desfrutar do ambiente hospitalar e da atenção que a criança doente recebe

– Pais  ou cuidadores que são excessivamente encorajadores para realização de procedimentos médicos,  ou um que demonstram  raiva e exijam mais intervenção, mais procedimentos, segundas opiniões ou transferências para instalações mais sofisticadas

Causas da Síndrome de Munchausen por procuração

O MBPS é uma condição psiquiátrica. Em alguns casos, os próprios autores foram abusados, fisicamente e / ou sexualmente, quando crianças. Eles podem ter vindo de famílias em que estar doente era uma maneira de se obter amor.

As necessidades pessoais do pai / mãe ou do cuidador superam sua capacidade de ver a criança como uma pessoa com sentimentos e direitos, possivelmente porque o pai ou cuidador pode ter crescido sendo tratado como se não fosse uma pessoa com direitos ou sentimentos.

Em casos raros, a SMP não é causada por um pai ou membro da família, mas por um profissional médico (como um enfermeiro ou médico), que induz a doença em uma criança hospitalizada por outros motivos.

O que acontece com a criança?

Nos casos mais graves, os pais ou cuidadores com SMP podem fazer grandes esforços para adoecer seus filhos

Na maioria dos casos, as vítimas de SMP precisam de hospitalização. E como podem ser considerados um “mistério médico”, as internações hospitalares tendem a ser mais longas que o normal. Qualquer que seja a causa, os sintomas da criança – criados ou fabricados – aliviam-se ou desaparecem completamente quando o agressor não está presente.

De acordo com especialistas, condições e sintomas comuns que são criados ou fabricados por pais ou cuidadores com SMPpodem incluir: falha no crescimento, alergias, asma, vômitos, diarreia, convulsões e infecções.

O prognóstico a longo prazo para estas crianças depende do grau de dano causado pela doença ou incapacidade e da quantidade de tempo necessário para reconhecer a causa.

Alguns casos extremos foram relatados situações em que crianças desenvolveram alterações relacionadas a desnutrição, como retardo no crescimento,  retardo mental, danos cerebrais e cegueira devido aos sintomas causados ​​pelos pais ou pelo cuidador. Muitas vezes, essas crianças precisam de várias cirurgias, cada uma com o risco de problemas médicos futuros. Para uma criança que tenha idade suficiente para entender o que está acontecendo, o dano psicológico pode ser significativo. A criança pode vir a sentir que será amada quando estiver doente e, portanto, poderá ajudar os pais a enganar os médicos, usando o auto abuso para evitar serem abandonados. E assim, algumas vítimas de SMP correm o risco de repetir o ciclo de abuso.

Obtendo Ajuda para a Criança

Se houver suspeita de SMP, os profissionais de saúde são obrigados por lei a denunciar o fato. No Brasil o ECA pode ser acionado e a criança na eminencia de sofrer outro abuso pode ser entregue a outros familiares, ou ficar sobre a guarda do conselho tutelar, até que perpetrador busque tratamento.

Em alguns casos, os pais ou responsáveis podem negar as acusações e mudar para outro local, apenas para continuar o comportamento. Se a criança for devolvida à custódia do perpetrador enquanto estiverem envolvidos serviços de proteção, a criança pode continuar sendo vítima de abuso enquanto o perpetrador evita tratamento e intervenções.

Reconhecer ao SMP como uma doença que tem potencial para tratamento é uma maneira de dar esperança às famílias nessas raras situações.

O manejo desses casos deve ser feito por uma equipe multidisciplinar, envolvendo pediatras, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, psiquiatras e advogados.

Fonte:

  1. MOURA, Egas et al. Síndrome de Munchausen por procuração. Rev. Saúde Infantil, v. 22, p. 75-81, 2000.
  2. TRAJBER, Zelik et al. Síndrome de Munchausen por procuração: o caso da menina que sangrava pelo ouvido. Jornal de Pediatria, v. 72, n. 1, p. 35-39, 1996.
  3. ZENONI, Alfredo. Quando o filho realiza o objeto (A respeito da chamada” síndrome de Munchausen por procuração”). Psicologia em Revista, v. 8, n. 12, p. 65-71, 2002.
  4. PIRES, Joelza MA; MOLLE, Lucas D. Síndrome de Münchausen por procuração–Relato de dois casos. Jornal de Pediatria, v. 75, n. 4, p. 281-286, 1999.
  5. BANNWART, Thais Helena; DE FARIA BRINO, Rachel. Dificuldades enfrentadas para identificar e notificar casos de maus-tratos contra crianças e/ou adolescentes sob a óptica de médicos pediatras. Revista Paulista de Pediatria, v. 29, n. 2, p. 138-145, 2011.

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